Cookie

O Gamereactor utiliza cookies para assegurar que lhe proporciona a melhor experiência possível no nosso site. Se continuar, vamos presumir que está satisfeito com a nossa política relativa a cookies.

Português
Início
especiais

Grande Entrevista Nelson Calvinho

O director de marketing da Nintendo no Reino Unido fala da experiência no estrangeiro, a actualidade da companhia, e os tópicos quentes dos videojogos.

A pedido de Nelson Calvinho este artigo segue as regras ortográficas anteriores à implementação do tratado A90. A Entrevista foi conduzida antes do anúncio da Nintendo Switch Lite, facto pelo qual não é referida.

Nelson Calvinho é um dos veteranos portugueses associado à indústria de videojogos, destacando-se inicialmente ao nível da imprensa e da crítica profissional, e mais tarde como principal galvanizador da Nintendo Portugal. Hoje é do director de marketing da Nintendo do Reino Unido, onde tem ajudado à criação de campanhas de destaque, posição que o coloca ainda mais próximo do centro da próprio Nintendo.

Depois da nossa entrevista em 2015, muito mudou na Nintendo, na indústria, e na vida do próprio Nelson, e como tal pensámos que estava na altura de uma atualização, de nova conversa. Tentámos perceber como está a ser a sua experiência de emigrante, o que se passa na actualidade da Nintendo, e qual a sua opinião sobre vários temas quentes dos videojogos, numa entrevista que podem ler na íntegra em baixo.

Desde a nossa última conversa mudaste-te para Londres e ganhaste mais protagonismo na Nintendo. Como surgiu essa oportunidade, e o que mudou a nível de responsabilidades?
Surgiu de surpresa no finalzinho de 2017, tinha eu acabado de terminar um ciclo de nove anos na Nintendo Portugal, que ajudei a fundar em 2009. Estava à beira dos 43 anos e quis uma experiência no estrangeiro, idealmente no Reino Unido ou nos Estados Unidos. Achei que com a minha idade seria a última hipótese de a conseguir. Essa oportunidade, já eu estava inactivo, acabou por surgir por parte da própria Nintendo. Na altura tinha em mãos duas outras propostas de conhecidas editoras no Reino Unido, mas não foi preciso pensar duas vezes quando o director-geral da Nintendo UK & Eire telefonou a convidar-me - o anterior director de marketing estava de saída. Foi uma "sorte" inacreditável ter conseguido realizar o meu sonho de trabalhar em Londres, continuando na empresa que adoro e tão bem conheço.

A responsabilidade aumentou no sentido da escala do mercado britânico - estamos a falar do maior mercado europeu de videojogos, e do quinto maior do mundo - e da visibilidade que esse mercado te dá. É um mercado importantíssimo para a indústria dos videojogos, não só pelo que representa em termos económicos, mas também pela influência que exerce nos outros mercados: é uma espécie de farol que antecipa o caminho.

Estão aqui instaladas muitas das maiores editoras e produtoras do mundo, mas também é crítico o facto de se tratar de um mercado anglófono. Tudo o que aqui se passa é acompanhado e lido em todo o lado - digo eu, que cresci a jogar jogos britânicos, a ler revistas britânicas e a acompanhar as tabelas de vendas britânicas desde os tempos do Spectrum - e isso eleva o escrutínio do que dizes e fazes a um nível muitíssimo superior ao que tens em Portugal. É uma comparação daquelas óbvias, mas é como vires do campeonato português para a Premier League. A exigência, o ritmo, a cobrança, são muito maiores.

"É uma comparação daquelas óbvias, mas é como vires do campeonato português para a Premier League. A exigência, o ritmo, a cobrança, são muito maiores."

O mercado britânico é extremamente competitivo e de longe o mais "progressista" a nível de retalho, de imprensa e de consumo de media, é preciso estar constantemente a par das tendências e só com uma equipa forte em teu redor consegues conquistar os desafios. E, como disse, a língua não é indissociável de tudo isto: sendo um mercado da língua inglesa, tudo o que se diz, escreve e faz em Inglês, dos Estados Unidos à Austrália, compete a nível de atenção. Se pensares nisso, não há empresa no mundo que não produza conteúdo e notícia em Inglês. Trabalhar no Reino Unido é competir no maior mercado do mundo, o da língua Inglesa.

A nível pessoal, é evidente que a minha posição garante maior visibilidade no interior da Nintendo, o que é fonte de enorme responsabilidade. Por outro lado, é um sonho estar mais perto de tudo, dentro e fora da Nintendo. O meu lado de geek e de miúdo que sonhava com isto ainda não acredita bem sempre que me sento à mesa com as pessoas que lideram as maiores empresas de videojogos do mundo, quando converso com jornalistas que sempre li e admirei, quando vou representar a Nintendo nuns BAFTA, ou quando estou num evento e ao meu lado estão sentados profissionais que admiro desde a adolescência.

Agora que estás neste cargo, qual é o passo seguinte? Para onde gostavas de evoluir?
Comecei o meu envolvimento na indústria há quase 30 anos. Se me dissessem há 30, 10 ou apenas há três anos que um dia lideraria o marketing da Nintendo no mais importante mercado europeu, provavelmente acharia uma previsão um bocadinho alucinada. Cheguei a esta posição sem ter feito planos deliberados para cá chegar, teve sempre tudo a ver com viver dia a dia a minha paixão por um medium que não pára de me surpreender, com o meu interesse por entender esta indústria através dos seus múltiplos pontos de vista: produtor, jogador, distribuidor, retalhista, crítico.

"É difícil haver algo mais interessante que pensar o marketing da Nintendo por dentro"

Isto para dizer que estou imensamente grato pela oportunidade e confiança que me foram dadas e não tenho nenhuns planos para "evoluir" daqui para fora, até porque é difícil haver algo mais interessante que pensar o marketing da Nintendo por dentro. E porque adoro viver em Londres. O passo seguinte é continuar a demonstrar que mereço aqui estar ajudando a Nintendo a crescer num mercado extremamente competitivo como é o do Reino Unido, e fazer a marca crescer na Irlanda.

A própria Nintendo também passou por várias alterações desde a última vez que falámos, e uma das mais marcantes é também recente - a passagem de testemunho na Nintendo América, do mítico Reggie Fils-Aimé para Doug Bowser. Conheces Doug? O que achas que pode acrescentar à Nintendo?
Não tive ainda a felicidade de o conhecer pessoalmente, mas o Doug Bowser é um conhecido e respeitado veterano da indústria que está na Nintendo América desde 2015, com profundo conhecimento de áreas críticas como Vendas e Marketing. Liderou os esforços nessa área durante o lançamento da Nintendo Switch, com os resultados que se conhecem no território americano. o apelido, Bowser... o Doug é um predestinado!

Cloud-gaming ou streaming de videojogos é uma noção que, embora não seja nova, tem sido cada vez mais falada. A própria Nintendo já tem algumas experiências de cloud-gaming na Switch, em particular no Japão, onde Resident Evil 7: Biohazard e Assassin's Creed: Odyssey foram lançados precisamente via streaming. Qual é a tua opinião em relação ao cloud-gaming? Pensas que pode ser benéfico para a Nintendo?
Naturalmente que cloud-gaming é uma tecnologia interessante e que no futuro desempenhará um papel importante na indústria. Também é verdade que os videojogos como forma de entretenimento interactivo e não passivo colocam um conjunto de desafios muito diversos daqueles que foram necessários ultrapassar no streaming de música ou cinema.

"Cloud-gaming é uma tecnologia interessante que no futuro desempenhará um papel importante na indústria"

Como sempre, a Nintendo mantém debaixo de olho todas as tecnologias e ferramentas ao seu dispor. Acabaste de dar disso um exemplo na tua questão. Mas se o cloud-gaming é interessante pela flexibilidade que dá aos jogadores de jogarem onde e quando quiserem... a Nintendo Switch já lhe dá essa opção, com um único dispositivo!

A Nintendo está focada no essencial, e o essencial neste momento é que a Nintendo Switch está a entrar no terceiro ano do seu ciclo de vida, está a ocupar espaços e momentos na vida dos jogadores que não eram até aqui ocupados, e está a fazê-lo com um riquíssimo catálogo de jogos que satisfaz todo o tipo de gostos para todo o tipo de pessoas, disponíveis em versão física ou digitalmente através da eShop. Para quem tem uma Switch, a conveniência de jogar onde e quando quiserem não é uma promessa, é já uma realidade.

Microsoft e Nintendo aproximaram-se imenso nos últimos meses, numa parceria que já resultou no lançamento de Cuphead para a Switch, e a recente revelação de que Banjo e Kazooie irão chegar a Super Smash Bros. Ultimate, além de tudo o que rodeia Minecraft. Mais interessante ainda, a Microsoft já apontou para a integração do Xbox Live na Switch, e possivelmente até o lançamento de uma versão do Game Pass na consola. O que te parece esta parceria, e como é vista internamente na Nintendo?
É uma parceria extremamente importante pela qualidade dos títulos em causa, mas que tem de ser enquadrada num contexto mais alargado de uma Nintendo Switch apetecível para variadíssimos parceiros, desde grandes editoras a indies. A Switch tem mais de dois mil títulos no seu catálogo, obviamente que a maioria são de outras editoras, algo sem precedente se pensarmos no contexto não tão distante de uma Wii U. Os títulos da Microsoft, assim como de qualquer outra editora ou produtora que entenda que a Nintendo Switch é uma plataforma adequada, são muito bem-vindos e não há motivos para não querer desenvolver esses laços de proximidade quando façam sentido para ambas as empresas.

"Os títulos da Microsoft, assim como de qualquer outra editora ou produtora que entenda que a Nintendo Switch é uma plataforma adequada, são muito bem-vindos"

Ganha o consumidor, que na Nintendo Switch tem oportunidade, pela conveniência que a consola proporciona, de jogar quando e onde quiser títulos que até já podia ter adquirido para outra plataforma, mas na qual estão "presos" à televisão. A Nintendo Switch permite ter mais tempo para os nossos jogos favoritos, sejam eles da Nintendo, da Microsoft, da Ubisoft, da Bethesda, da Square Enix ou de um produtor independente.

E o inverso? Achas que algum dia será possível ver uma licença da Nintendo numa consola 'concorrente?
Bom, houve o caso da CD-i... A Nintendo procura proporcionar experiências únicas e diferenciadoras que frequentemente estão ligadas de forma íntima e harmoniosa ao hardware para o qual foram desenhadas. É essa colisão entre hardware e software que permitiu experiências como 1-2 Switch e Nintendo Labo, para não ir mais atrás, a todo o catálogo de jogos Wii ou os que aproveitavam o duplo ecrã da Nintendo 3DS e Nintendo DS. São experiências que não podem ser reproduzidas noutras plataformas que procurem, com toda a legitimidade, hardware mais normalizado e experiências mais homogéneas. Acredito que é importante para toda a indústria que exista uma Nintendo que inova e arrisca, que ousa o que é impensável.

É uma enorme fonte de satisfação quando os consumidores comentam sobre um produto nosso que é "tipo Nintendo" ou "só possível numa consola Nintendo".

Continua na página seguinte