Por esta altura já devem ter ouvido falar e lido muito sobre Crime no Hotel Lisboa, o jogo de aventura produzido pela portuguesa Nerd Monkeys. É um projeto inspirado pelos clássicos do género, que se destaca pela localização - Lisboa - e pelas muitas referências e esterótipos que retira da sociedade "tuga". O Gamereactor já teve a oportunidade de terminar a aventura e, embora reconheçamos algumas limitações no jogo, ficámos encantados com o resultado final.
Em Crime no Hotel Lisboa vão assumir o papel do Inspetor Zé e o seu parceiro, o Robot Doméstico 9000. O Inspetor Zé é um detetive mulherengo, que gosta de uma boa pinga e é um fumador compulsivo. O Robot Doméstico 9000, também conhecido como Robot Palhaço, é um prodígio da tecnologia que o Zé herdou, mas apesar do nome, não tem grande afinidade por tarefas domésticas.
Além de ter um péssimo gosto em anedotas, que não teme partilhar com os jogadores - e até existe um mini-jogo só de anedotas chamado Palhaço em Pé -, o Robot Palhaço é o único que tem consciência de que está num jogo, por vezes quebrando a quarta barreira (para espanto das outras personagens) e permite aceder a várias funções especiais. Incluindo pedir a ajuda do polvo Joãozinho, que vive num buraco negro e que guarda os itens essenciais para a aventura (só visto).
Juntos terão de tentar resolver uma estranha ocorrência no Hotel Lisboa. Um homem, o senhor Sebastião Love terá cometido suicídio com 14 facadas nas costas. Sem grandes pistas (ou talento) para seguir, o agente Garcia acaba por pedir a ajuda do Inspetor Zé para resolver este complicado caso.
Crime no Hotel Lisboa recai no género de aventura clássica, funcionado através da mecânica point-and-click. Será desta forma que vão interagir com os objetos e as personagens no cenário. Como em qualquer jogo de aventura, terão de resolver puzzles e corresponder itens, mas existe mais um elemento na jogabilidade.
Eventualmente terão de interrogar testemunhas, numa espécie de duelo entre uma das personagens principais e o interrogado. Essencialmente funciona de forma semelhante a LA Noire, onde é necessário escolher uma pergunta ou afirmação e associar ao item que corresponde. Antes de cada interrogatório podem escolher quem faz as perguntas, se o Inspetor, se o Robot.
Enquanto que o Zé é mais agressivo e impetuoso, o Robot palhaço é naturalmente mais calmo e meticuloso. As perguntas, embora signifiquem mais ou menos o mesmo, mudam para acomodar os feitios das duas personagens e podem obter resultados diferentes das testemunhas. Faz lembrar a rotina do Bom Polícia, Mau Polícia, ou neste caso, Mau Zé, Bom Palhaço.
A jogabilidade divide-se assim em três mecânicas chave: diálogo, exploração e interrogação. Terão de conversar com as personagens para perceberem o que devem fazer de seguida, investigar os locais à procura de pistas e depois confrontar as testemunhas com as provas que encontraram.

Crime no Hotel Lisboa destaca-se sobretudo pelo estilo visual, a lembrar os jogos de outrora e até corre numa resolução de 256x192!. Mas apesar de ser "Low Definition", o estilo de arte é fantástico. Não só isso, como o jogo decorre como se fosse uma peça de teatro. Em situações mais engraçadas podem ouvir o público a rir e até ver as silhuetas das suas cabeças.
Durante a aventura vão visitar vários locais tipicamente portugueses, com um estilo de arte que procura invocar as tradições nacionais, não só nos locais, mas também nas personagens. Pela maioria, adorámos o estilo, embora existam alguns elementos menos trabalhados que outros, mas no geral, gostámos.
Não existem muitas localizações para explorar. Essencialmente existe a rua do Hotel Lisboa, a rua do salão de jogos Press Play, a rua da Esquadra da Polícia, a rua onde o Zé mora e o parque. Aqui podem visitar os locais correspondentes e mais alguns, como o Bar Gaf e o restaurante Noitadas (onde podem ouvir um belo fadinho). Até existe um tal de beco D.L.C. com algumas surpresas.
Outro elemento que destaca claramente Crime no Hotel Lisboa é o diálogo. O jogo está disponível em português e em inglês, mas este é um dos poucos que é sem dúvida melhor apreciado no nosso idioma. O argumento é normalmente engraçado, com uma utilização inteligente de calão e ditos populares, pese embora algum exagero ocasional. De qualquer forma, é refrescante encontrar um jogo com este tipo de linguagem. Também é importante realçar a excelente banda sonora.

Além do crime principal, existem algumas tarefas secundárias para cumprir, que podem ser concluídas mesmo depois de terminarem o jogo. Entre outros mistérios (e até existe um "bug" delicioso no hotel para encontrar), podem tentar descobrir as cassetes de VHS espalhadas pelos cenários. Boa sorte...
Crime no Hotel Lisboa tem algumas limitações técnicas e apresenta algumas incoerências. Mesmo a nível de design do jogo em si, não é particularmente brilhante, mas é ainda assim, especial. É um jogo divertido, com pormenores deliciosos e acima de tudo, é genuinamente português. Não só por causa do facto da produtora estar sediada em Portugal, ou dos diálogos na nossa língua, mas sobretudo porque tem uma enorme alma. Uma alma lusitana.
Se estão interessados em saber mais um pouco sobre o jogo ou se o querem comprar por € 9.99, podem fazê-lo aqui.