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"Há muito talento a ser desperdiçado todos os dias"

O Gamereactor falou com Filipe Pina, Pedro Geada e Diogo Vasconcelos sobre a indústria de videojogos em Portugal.
Ricardo C. Esteves Editor-in-Chief Portugal 15 Setembro 2013

O nosso pequeno cantinho da Europa não é conhecido pelas suas grandes produtoras de videojogos nem é tão pouco um mercado particularmente apetecível para as editoras, mas isso não significa que não haja talento em Portugal. Mesmo sem grandes meios, os portugueses têm conseguido mostrar que também sabem fazer jogos e que somos um povo verdadeiramente apaixonado pela indústria.

Lá fora já são bastantes as produtoras que empregam portugueses em várias áreas e cá dentro continuam a aparecer grandes talentos. O Gamereactor conversou com dois produtores, Filipe Pina da Nerd Monkeys, que está a produzir Crime no Hotel Lisboa e Pedro Geada, da Immersive Douro, produtora que acabou de lançar Johnny Scraps: Clash of Dimensions.

Crime no Hotel Lisboa

NOVOS PROJETOS

Crime no Hotel Lisboa goza de uma forte inspiração na cultura portuguesa, como confirma o próprio Filipe: "Este rumo foi decidido muito cedo quando comecei a imaginar e a escrever todo o jogo. Era preciso colocar estas personagens em situações engraçadas e caricatas e era preciso também ter um design novo e diferente do que se costuma ver todos os dias. O estilo de jogo retro passado nos anos 80 com o nosso país como cenário era a situação ideal para criar personagens diferentes e únicos."

Já a Immersive Douro, que acabou de lançar Johnny Scraps: Clash of Dimensions para as plataformas Android, promete que isto é apenas o início deixou transparecer grande confiança: "Lançamos agora um jogo, e já anunciamos outro em desenvolvimento. Vamos mostrar que os portugueses também se divertem a fazer jogos e eventualmente dominarão o mundo, um jogo de cada vez!

Johnny Scraps: Clash of Dimensions

DAS PALAVRAS AOS ATOS

Produzir videojogos em Portugal não é fácil, mas é possível. Segundo Filipe Pina, só é preciso muita força de vontade: "Ao fim de quase 14 anos a fazer videojogos (sete profissionalmente), diria que o maior entrave está mesmo na cabeça dos portugueses. Para fazer um videojogo só é preciso um computador e muito, mas mesmo muito trabalho. Hoje em dia existem motores de jogo baratos e muito simples de usar. O processo de publicação digital está afinado e generalizado e há mais gente a comprar e a jogar videojogos do que alguma vez houve."

Pedro Geada partilha de uma opinião semelhante: "Em Portugal muita gente fala sobre jogos mas poucos realmente os fazem, nem que seja em papel. Existem muitos teóricos, estudiosos, críticos e "entendidos" que gostam de falar de jogos, mas não passam da conversa. Isto perturba-me profundamente. Especialmente quando alguns até têm contatos que seriam uma mais valia quando postos ao dispor de quem realmente faz jogos e tenta lançá-los no mercado. Já somos poucos, se não nos ajudarmos todos uns aos outros, então seremos sempre pequenos."

EDUCAÇÃO

Embora não sejam particularmente divulgados, existem cursos dedicados à produção de videojogos. Mas serão realmente a resposta certa? "A educação tem dado bons passos mas ao mesmo tempo têm aparecido muitos cursos "falsos". Ou seja, cada vez mais existem cursos de especialização para programadores, artistas, animadores, produtores etc. com bons professores e um bom método mas ao mesmo tempo também existem aqueles cursos que prometem ensinar tudo isto de uma vez só. Há muito talento a ser desperdiçado todos os dias," afirmou Filipe Pina.

Já Pedro Geada partilhou a sua experiência como exemplo: "No que toca aos cursos em si, acho que é só uma questão de tempo. Eu tirei a minha licenciatura em Design de Jogos Digitais, em Mirandela. Não foi no Porto ou em Lisboa, mas sim numa terrinha de trás-os-montes! Eu sou de Setúbal e fugi para 600 Km de casa para aprender a fazer jogos! O que é um pouco preocupante..."

FUTURO

Apesar das dificuldades, o crescimento do mercado independente de videojogos tem sido preciso para as produtoras nacionais, mas poucos têm apostado nas consolas. Será que isso vai mudar com a PlayStation 4 e a Xbox One, plataformas que já demonstraram maior abertura para os estúdios independentes?

Segundo Filipe Pina, dificilmente: "Já existem muitos projetos nacionais e nada tiveram a ver com a PS4 e Xbox One. Foi o mercado digital generalizado que permitiu esta facilidade. O facto de haver esta abertura não quer dizer que mais equipas pensem dar o salto até porque com a PS3 isso já era possível de fazer (como nós fizemos na Seed Studios) e no entanto só nós editámos um jogo para PS3 em Portugal. Penso que se vai continuar a dar preferência a plataformas como Steam, iOS e Android."

Já Pedro Geada tem uma perspetiva mais otimista: "Os consumidores estão cada vez mais exigentes e espertos, e é no mercado Indie que surgem as verdadeiras ideias originais, por isso tanto a Sony como a Microsoft procuram aumentar os seus apoios. Nós, os produtores, agradecemos, porque quanto menos barreiras existirem, mais ideias loucas e divertidas podemos trazer à vida!"

O OUTRO LADO

A indústria não vive apenas de produtoras e mesmo numa altura de grande crise financeira, continuam a aparecer lojas dedicada a videojogos, como foi o caso da Core Gamer. O Gamereactor contactou o dono da loja, Diogo Vasconcelos (que também é fundador da Nerd Monkeys), para percebermos o porquê de uma aposta que outros considerariam arriscada.

"Porque não abrir uma loja de videojogos? Se todos os negócios do país retraírem-se por estarmos em crise e deixarem de investir na sua própria expansão, então ai é que a situação fica mesmo negra. Vou ainda mais longe e acrescento que o motivo pelo qual estou a investir tanto nesta altura é precisamente porque estamos em crise," respondeu o Diogo.

O segredo para o sucesso pode estar na oferta de algo que as grandes superfícies não conseguem oferecer: "Algo que hoje em dia é extremamente subestimado no comércio nacional de qualquer ramo, é o convívio e potencial de fazer grandes amizades com pessoas que gostam de temas em comum, e isso é algo que não se vende, mas que podem encontrar numa loja como a Core Gamer."

Portugal ainda tem muito que crescer para se afirmar de vez na indústria dos videojogos. Da parte dos envolvidos - produtores, editoras, retalho e produtoras - é preciso muito trabalho, paciência e vontade. Por parte de quem não está envolvido, é necessária uma consciência maior em relação ao verdadeiro valor dos videojogos como meio de entretenimento, ainda infelizmente mal interpretado e julgado precipitamente com argumentos escassos ou falso. Mas talento existe, obviamente, e com paciência Portugal terá um dia uma palavra real a dizer nesta matéria.

Editor-in-Chief Portugal Ricardo C. Esteves was editor-in-chief of Gamereactor Portugal, writing for the site from 2013. He covered video games across news, previews and reviews, and also wrote on film and television.
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