Ragnarok significa o fim do mundo na mitologia nórdica, o fim de Asgard no contexto do filme, mas aplica-se também à personagem de Thor como o conhecemos até aqui. O Deus do Trovão convencido, sério, e dramático que surgiu nos dois primeiros filmes, foi completamente descartado para este terceiro capítulo, dando lugar a uma personagem muito mais leve e cómica. E é esse o tom de Thor: Ragnarok. É uma comédia, que quase nunca se leva a sério, e que não tem medo de deixar o drama ficar de lado para proporcionar boa diversão ao espetador.
Isso talvez não caia bem com todos os fãs da personagem, já que Thor não é exatamente um herói cómico na banda desenhada. O facto do filme também nunca se levar a sério, implica que nunca existe uma real sensação de urgência ou perigo para os heróis. É o filme da Marvel que mais se aproxima do tom definido por Guardiões da Galáxia, e se por um lado falta-lhe o impacto dramático que outros filmes tiveram, é inegável que nos divertimos imenso ao longo de todo o filme, com momentos de genuínas gargalhadas.
Thor: Ragnarok foca o fim de Asgard, associado ao regresso de Hela, a Deusa da Morte. Como já devem ter visto no trailer, Hela consegue destruir o martelo de Thor, e expulsa-o de Asgard, o que divide o filme em dois ritmos muito distintos. De um lado, Hela, e os seus esforços para submeter o povo de Asgard sob o seu domínio. Do outro, Thor, que acaba por 'aterrar' num estranho planeta dominado pelo Grandmaster, interpretado por Jeff Goldblum. Esta personagem assume em parte o papel de vilão secundário, ainda que não seja necessariamente maléfico. É antes excêntrico e despreocupado, uma personalidade que encaixa como uma luva no ritmo que a Marvel pretendeu para o filme.
Como os trailers também já mostraram, Thor vai reencontrar Hulk neste planeta, que estava desaparecido desde os eventos de Os Vingadores 2: A Era de Ultron. É uma versão do Hulk que nunca tínhamos visto até aqui, já que tem sido a besta verde a manter o controlo do corpo durante os últimos dois anos, deixando Bruce Banner completamente esquecido. Isto significa que Hulk evoluiu durante este tempo, sendo capaz de conversar, e de ter mais emoções do que a simples vontade de esmagar tudo. Embora tenha evoluído, Hulk é um pouco como uma criança presa num dos corpos mais poderosos do universo, o que naturalmente cria alguns momentos de comédia.
A química entre Thor e Hulk é uma delícia, e quando ambos estão no ecrã, é difícil desviar o olhar. O mesmo acontece com Bruce Banner (sim, eventualmente Hulk acaba por dar lugar ao seu alter-ego), que por ter estado preso dentro de Hulk não faz ideia de onde está ou o que se passa, o que também cria algumas situações engraçadas. A esta mistura juntam-se ainda Loki e Valquíria, duas personagens que encaixam na perfeição no tom do filme, cada uma com os seus momentos de brilho.
Embora divertido, Thor: Ragnarok não seria um filme de super-heróis sem boa ação. Existem vários momentos de grande espetáculo no filme, embora as capacidades sobre-humanas de quase todos os envolvidos acabe por retirar urgência ao filme. Só existe uma cena em que algo sério acontece, mas devido a tudo o resto que se passou no filme, é um evento que acaba por chocar com tudo o que vimos até aí.
Thor: Ragnarok tem também algumas surpresas pelo meio, com aparições de personagens e atores que não esperávamos ver. Não vamos naturalmente estragar estes "cameos", já que basta dizer que existem muitas referências no filme. Algumas serão facilmente identificadas, outras vão obrigar a maior atenção, mas existe detalhe para apreciar em Thor: Ragnarok.
Embora seja um filme de espírito leve, Thor Ragnarok tem tremendas implicações para o universo da personagem, e até para o resto do universo cinemático da Marvel. Será curioso perceber como irá Thor evoluir nos próximos filmes, em particular em Os Vingadores: A Guerra do Infinito (não se sabe se este foi o último Thor individual, ou se mais serão lançados). Gostámos da direção que a Marvel deu à personagem, e um filme é diversão do princípio ao fim, mas esperamos que seja algo contido ao herói.
Algo como Pantera Negra e Guerra do Infinito terá de ter obrigatoriamente um tom diferente, e de se levar muito mais a sério do que este Thor: Ragnarok. A comédia voltará certamente com Homem-Formiga 2, mas até lá, desejamos ver algo com maior impacto dramático nos filmes que referimos em cima. Voltando a Thor: Ragnarok, é o filme perfeito para ver acompanhado de um balde gigante de pipocas, para encarar com boa disposição e um sorriso na cara. Se assim for, é quase garantido que vão sair do cinema com um sorriso maior.

