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A E3 nunca mais será a mesma

A edição 2017 vai abrir as portas ao público pela primeira vez na estória do maior evento de videojogos.

  • Texto: Bengt Lemne

Pela primeira vez na história do evento, a E3 vai abrir as suas portas ao grande público - até agora só estava disponível a convidados. Não é, contudo, um preço simpático. Cada visitante do público terá de pagar 250 dólares, e honestamente, parece-nos difícil justificar esse preço. Para o comum jogador, a E3 não será assim tão diferente de outros eventos mais acessíveis como PAX ou Gamescom, já que o bilhete não dá acesso às conferências, e os jogos mais interessantes costumam ser mostrados à porta fechada. Sim, existe algo diferente, algo especial, no Centro de Convenções de Los Angeles, e a oportunidade para experimentar jogos como Call of Duty: WWII, Days Gone, Super Mario Odyssey, e possivelmente até a Xbox Scorpio, é um aliciante especial. Ainda assim, quem quiser experimentar estes jogos e consolas terá certamente de esperar em longas filas.

O público normal pode não estar consciente disto, mas a E3 divide-se em três fases: conferências, pavilhões, e porta fechada. O público apenas terá acesso aos pavilhões, e nos últimos anos, os pavilhões não têm sido assim tão entusiasmantes quanto isso. Normalmente nos pavilhões só estão jogos relativamente próximos do lançamento, com versões sólidas de jogabilidade. Todos os outros são mostrados à porta fechada, em ambientes mais controlados. Por exemplo, no ano passado a Sony mostrou Days Gone e God of War nas conferências, mas nenhum deles esteve presente nos pavilhões - só foram mostrados à porta fechada.

A edição 2017 da E3 fica também marcada pela ausência de várias editoras dos pavilhões, como a Electronic Arts. A editora optou por criar o seu próprio evento, o EA Play, que decorre alguns dias antes da própria E3 - uma estratégia que prevê potenciar ao máximo a atenção dos jornalistas. Rockstar e Blizzard raramente fazem uma presença nos pavilhões, e na melhor das hipóteses, vão vê-las nas conferências. Existem várias editoras menores que também não têm grande presença nos pavilhões, provavelmente conscientes que os seus jogos acabam por não ter a atenção dos jornalistas que pretenderiam, mas... então, quem vai?

A Take Two, por exemplo, vai marcar presença com os novos NBA 2K e WWE 2K. A Warner Bros. vai também tentar chamr atenções, com destaque para Middle-earth: Shadow of War, e Lego Marvel Superheroes 2. A Bethesda tem apostado cada vez mais na E3, com conferências próprias nos últimos anos, mas ainda não é claro o que vai mostrar nos pavilhões. Ubisoft, Sony, Microsoft, e Nintendo, são também presenças habituais, e todas costumam estar cheias durante o evento.

Marcámos presença constante na E3 desde 2005, ano em que Sony e Microsoft estrearam a PS3 e a Xbox 360, respetivamente. 2006 foi um dos anos mais fortes, seguido de dois anos fracos. Desde então o evento estabilizou-se, mas 2017 parece ser outro 2006, ou seja, um ano que antecede grandes mudanças. Se em parte o evento é este ano aberto ao público, parece-nos que a ideia em 2018 será abraçar por completo esse conceito - com dias ou áreas específicas para a imprensa. Será que um evento completamente dedicado ao público seria suficiente para atrair o regresso de editoras como a Electronic Arts? Não sabemos, sobretudo quando o EA Play parece ter sido proveitoso para a editora em 2016.

Existe também a hipótese que um evento totalmente dedicado ao público acabe por atrair mais eSports e jogos free-to-play, o que tornaria a E3 em algo mais próximo dos outros eventos de jogos. Se isso acontecesse, poderia ser prejudicial para o mito da E3, o que provavelmente causaria a ausência de ainda mais editoras e produtoras independentes. Mas algo tem de ser feito.

Costumavam existir mais retalhistas no evento, mais visitantes de outras indústrias, mais entusiasmo geral. Isso está a desaparecer, e esse vazio tem de ser preenchido por alguém. Um número cada vez menor de visitantes não é um bom sinal para o maior evento de videojogos do mundo, e em parte foi isso que motivou a abertura ao público. A imagem de que a E3 é o maior evento tem de ser mantida, e colocar os jogadores no centro do evento parece ser a solução que a organização encontrou.

É esse estatuto que a E3 conquistou que leva a indústria a torrar dinheiro considerável neste evento, e não existe nada tão mediático como concentrar o grosso da E3 no Centro de Convenções. No ano em que não apostaram nos pavilhões, e fizeram tudo em hotéis de Santa Mónica, tornou-se bem evidente a importância do Centro de Convenções. A E3 é também crucial para o interesse dos media norte-americanos em videojogos, já que toda a semana é preenchida com novidades de telejornais, programas, e talk-shows. É uma atenção de que a indústria precisa desesperadamente, que abre a portas dos videojogos ao grande público, mesmo os que não são particularmente interessados neste meio. Para isso é preciso o "espetáculo" que só um evento no Centro de Convenções pode proporcionar. Um pouco como acontece com o Lisboa Games Week em Portugal, embora numa escala muito menor.

Outro factor a considerar é a explosão dos "influenciadores" nos últimos anos, como youtubers e streamers. Se é esse o tipo de atenção que uma editora procura, algo como a E3 pode não ser ideal para si. A ideia é concentrar a atenção desses indivíduos nos seus jogos, não no evento e noutros jogos. Se o propósito é esse, talvez queiram convidar esses influenciadores para eventos privados, sobretudo quando esse espaço entre jornalistas, influenciadores, e personalidades de entretenimento está cada vez mais misturado. É um fenómeno global, com grande impacto por toda a indústria, e a E3 não é exceção.

Todos os anos se fala em "vencedores" e "vencidos" da E3, e embora não sejam termos muito desportistas, a publicidade ganha por uma boa E3 - sobretudo nas conferências, é algo muito importante para as editoras. O oposto é também verdade, e se alguém ou algo (como a Xbox One) tiver uma má E3, pode ser difícil inverter o rumo da situação. Um momento de glória na E3 tem ainda o condão de catapultar jogos e produtoras desconhecidas para o grande palco, como foi o caso de Unravel e No Man's Sky, dois exemplos de como a popularidade cresceu a olhos vistos com boas E3.

Todas as editoras e produtoras têm essa esperança, a de que os seus jogos acabem por furar o ruído que se cria em torno do evento, mas isso nem sempre é fácil ou previsível. E claro, quanto mais dinheiro uma editora gastar em espaço e marketing, mais hipóteses tem de chamar a atenção. Mas como isso não é algo certo, quando o investimento corre mal, perde-se muito dinheiro.

A E3 está numa situação complicada, em que é claro de que é preciso mudar algo, mas também tem receio de mudar demasiado. É uma situação bizarra, já que neste momento estão à procura do melhor formato para acomodarem as editoras e produtoras sem perderem o investimento e a cobertura mediática. Este ano será interessante ver como corre a abertura das portas ao público, não só em termos de interesse e divertimento dos jogadores, mas também de como isso irá afetar o trabalho dos jornalistas, dos produtoras, e dos responsáveis por relações públicas.

A E3 arranca dentro de uma semana, e se quiserem ver o calendário completo do evento, cliquem aqui.