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Joker

Uma interpretação fantástica de Joaquin Phoenix, num filme de banda desenhada que não é sobre super-heróis.
Ricardo C. Esteves Editor-in-Chief Portugal 7 Outubro 2019

Joker foi notícia recorrente nas últimas semanas, primeiro por ter sido muito bem recebido em vários festivais, incluindo uma ovação de 8 minutos em Veneza onde ganhou o Leão Dourado, e depois porque gerou uma onda de polémica e sobressalto nos EUA, com segurança reforçada nos cinemas, e muitas queixas de que o filme iria longe de mais na sua representação - e sobretudo glorificação - do vilão.

Honestamente, não queremos saber disso para nada, e vamos analisar Joker meramente pelo que é, um filme corajoso, intenso, e adulto, que mostra a história de origem de Joker, um dos vilões mais cruéis, imprevisíveis, e doentios da banda desenhada. Não é um filme de super-heróis, e ao contrário do que é habitual, não existe nenhum Batman para equilibrar a balança.

Por outras palavras, não levem as crianças para verem este filme: tem pouca ação, a violência é impactante, e ninguém vai sair a sorrir do cinema. É também um filme que aborda uma série de questões atípicas para um filme de banda desenhada, como falta de apoio e compreensão por doenças do foro psicológico, e desigualdade social.

Joker passa-se em Gotham City (que é essencialmente Nova Iorque) dos anos 80. É uma cidade suja, cruel, e sombria, mais ainda porque quando começa o filme está em vigor uma greve do serviço municipal de recolha do lixo. Todo o filme concentra-se na personagem de Arthur Fleck, um tipo que vive com a mãe, que luta contra distúrbios mentais graves, e que tenta sobreviver com um emprego precário numa agência de palhaços.

Como já deve ter reparado nos trailers, a vida não corre bem a Arthur Fleck, e o que se segue é a sua viagem pelos infernos até cair na demência total e na personagem que todos conhecemos como Joker. Não vamos entrar nos pormenores, mas todo o processo é deprimente, por vezes até em demasia. É difícil acreditar que tanta miséria aconteça ao mesmo tempo a uma só pessoa, e esse é em parte um dos defeitos do filme na nossa opinião.

Como referimos, problemas de foro psicológico e a falta de apoio do governo a pessoas nessas condições são também um dos grandes temas do filme, juntamente com a desigualdade social de Gotham, onde o 1% extremamente rico (que tem em Thomas Wayne, pai de Bruce Wayne, principal figura) contrasta com a miséria do resto da população empobrecida de Gotham. Embora extremo, Joker é quase uma história de advertência para a sociedade, de onde se destaca uma das frases mais poderosas do filme: "O que acontece quando um indivíduo com problemas mentais encontra uma sociedade que o ignora e o trata como lixo? Têm o que merecem!"

Achámos sobretudo curiosa uma das afirmações do diretor Thod Phillip em relação ao filme, de como desenharam Joker para que o público torcesse pelo vilão... até que não conseguissem mais. "Se esse ponto chega mais cedo ou mais tarde, depende de cada espetador."

Por ser um filme tão realista e sombrio, até pode pensar que não existe qualquer ligação ao universo de Batman, mas existem várias. Algumas são muito ténues, e só os maiores fãs vão apanhar, outras são surpreendentemente óbvias e icónicas, mas sem nunca parecerem forçadas. Se são fãs de Batman, não temam, porque este Joker ainda faz parte do universo da DC, ainda que seja uma versão particularmente rude e crua desse universo.

É também preciso louvar o filme pela excelente cinematográfica de algumas cenas, a banda sonora assombrosa, e claro, o desempenho estupendo de Joaquin Phoenix, que tem de ser nomeado para os Òscares - o contrário seria uma tremenda injustiça. Dito isto, ainda temos grande admiração pelo Joker de Heath Ledger, e Batman: O Cavaleiro das Trevas continua a ser o melhor filme da DC Comics na nossa opinião.

Joker não é um filme fácil, e nem o devia ser. É exatamente o que um filme apenas dedicado ao Joker precisava de ser. Tem, contudo, mais segredos e reviravoltas do que esperávamos, ainda que cozinhe' em demasia o infortúnio de Arthur Fleck. Não é um filme para todos, mas qualquer fã do Joker que deseje ver um filme sério, adulto, intenso, e até perturbador, vai ter exatamente "aquilo que merece".

Editor-in-Chief Portugal Ricardo C. Esteves was editor-in-chief of Gamereactor Portugal, writing for the site from 2013. He covered video games across news, previews and reviews, and also wrote on film and television.
Perfil completo Autor da Gamereactor desde 2013 · 7.617 artigos publicados
Dados do jogo Joker
Data de lançamento 3 Outubro 2019
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